Ferraz, Santa Isabel e Suzano têm casos suspeitos de reinfecção por coronavírus em investigação

Pacientes são mulheres que testaram positivo e manifestaram sintomas da doença em dois períodos diferentes.

As prefeituras de Ferraz de Vasconcelos e de Santa Isabel informaram que investigam duas suspeitas de reinfecção pelo novo coronavírus (Covid-19). Ambos os casos envolvem mulheres que testaram positivo para a doença em dois períodos diferentes. Além disso, nesta quarta-feira (9), um hospital participar de Suzano divulgou também investigar uma situação deste tipo.

O primeiro caso de reinfecção da Covid-19 confirmado no mundo foi em Hong Kong. No Brasil, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) separou um ambulatório para atendimento e análise de casos suspeitos.

Segundo o infectologista Max Igor Lopes, que coordena o ambulatório, os pacientes que testaram positivo para a doença no intervalo de, pelo menos, dois meses podem ser considerados suspeitos de reinfecção, mas diversos aspectos devem ser analisados (confira a entrevista abaixo).

Suspeitas no Alto Tietê

Em Ferraz de Vasconcelos, de acordo com a Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde, a suspeita envolve uma mulher de 38 anos, moradora da Vila Sofia. Ela foi diagnosticada com o novo coronavírus em maio e, depois, em agosto.

Ainda segundo a Secretaria de Saúde, no primeiro quadro da Covid-19, a mulher foi testada e acompanhada pela equipe da Unidade Básica de Saúde (UBS) Bela Vista, pois não houve necessidade de internação.

Já na segunda vez, a moradora foi identificada com a doença pelo Hospital Regional Doutor Osíris Florindo Coelho, de administração do governo do Estado. Ela esteve internada no local, mas já recebeu alta e está bem, informou a Prefeitura.

Na cidade de Santa Isabel a suspeita é de uma paciente de 29 anos, que testou positivo para a doença pela primeira vez em março. O segundo diagnóstico veio em agosto. Nas duas ocasiões ela apresentou sintomas leves, de acordo com a administração municipal.

Em Suzano, o hospital particular Santa Maria afirmou que investiga, em conjunto com o Albert Einstein, uma possível reinfecção de uma paciente de 33 anos que testou positivo pela primeira vez em 2 de maio. Ela retornou à instituição de saúde no dia 24 de agosto com sintomas gripais, tosse e cansaço. A paciente se recupera em casa, seguindo recomendações médicas. O estado é considerado estável.

O exame do tipo PCR, de acordo com o hospital, foi encaminhado para análise do Albert Einstein nesta quarta-feira (9). O hospital afirmou que “vai contribuir com suporte para a avaliação das cópias virais e do mapeamento genético do caso – há aproximadamente 100 mutações do vírus que provoca a Covid-19”. A Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) também fez a sorologia para estudos e irá monitorar a paciente e a situação.

O Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo (CVE) informou que qualquer suspeita de Covid-19 passa por investigação clínica e laboratorial, por parte das equipes técnicas, incluindo as hipóteses de reinfecção.

Disse, ainda, que é precoce afirmar que houve qualquer situação de reinfecção pelo novo coronavírus no Alto Tietê ou no Estado. As secretarias de Saúde de Ferraz de Vasconcelos e de Santa Isabel informaram que os casos estão em investigação.

A Secretaria de Saúde de Suzano informou que a diretoria de Vigilância Epidemiológica está acompanhando o caso desde o dia 30 de agosto, quando foi realizado o segundo exame.

Disse também que já realizou a coleta de amostras junto à paciente e encaminhou para um terceiro exame junto ao Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, para análise mais detalhada do caso, e que aguarda a divulgação dos resultados.

O novo exame do Instituto, segundo a Prefeitura, serve para para avaliar se de fato é uma reinfecção ou se é uma partícula residual da primeira contaminação. Após este resultado outros testes podem ser necessários para o diagnóstico correto do caso.

Pesquisas no Brasil

Em Hong Kong, cientistas informaram que um paciente de 33 anos, sem doenças pré-existentes, pegou o vírus pela segunda vez, quase cinco meses depois da primeira infecção. Bélgica e Holanda também relataram diagnósticos parecidos.

No Brasil, a discussão começou depois que médicos do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto divulgaram o caso de uma técnica de enfermagem, de 24 anos, que trabalha em uma UBS. Pesquisadores da USP ainda analisam os exames, para confirmar se ela foi mesmo contaminada mais de uma vez.

O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP separou um ambulatório para acompanhar possíveis casos de reinfecção pelo novo Coronavírus. Até o começo do mês, sete pacientes procuraram a unidade para relatar suspeitas. Todos seguem em investigação.

De acordo com o infectologista Max Igor Lopes, do ponto de vista científico, os pacientes que tiveram dois testes positivos para Covid-19 dentro de um intervalo de, no mínimo, dois meses e apresentaram sintomas em ambas as ocasiões, podem ser encarados como casos suspeitos de reinfecção.

No entanto, antes que essa segunda contaminação seja considerada, os especialistas precisam investigar. Max explica que os pacientes são ouvidos pelos pesquisadores, que tentam traçar um histórico e compreender, principalmente, a segunda infecção.

Confira algumas hipóteses para o retorno dos sintomas meses após a primeira contaminação:

  • a segunda infecção seria, na verdade, a reativação do vírus, que estava no corpo do paciente desde a primeira contaminação, não foi eliminado e voltou a causar sintomas;
  • a volta dos sintomas, pelo menos dois meses após o primeiro diagnóstico, seria uma reação do organismo durante o processo de eliminação dos restos do vírus;
  • a suposta segunda contaminação, na verdade, seria uma doença causada por outro vírus respiratório, como o da gripe, que causaria sintomas parecidos.

O infectologista afirma que o processo de pesquisa depende de muitos fatores para que a possível reinfecção seja avaliada a fundo. Como a Covid-19 é uma doença relativamente nova, os estudos também são recentes e encontram dificuldades em seu processo. Uma delas é a demora do paciente em buscar atendimento.

“As pessoas vão chegando no laboratório um pouco tardiamente em relação a essa segunda infecção. Essa infecção ocorreu e já melhorou. Então você vai tentando avaliar cada indivíduo sobre o que você consegue fazer mais para tentar esclarecer”, declara o especialista.

Lopes diz que, em um cenário ideal, a confirmação da segunda contaminação pelo coronavírus poderia ser realizada por meio do sequenciamento genético. Assim como foi feito com o paciente da China, os pesquisadores comparam as amostras do vírus que foram coletadas na primeira e na segunda infecção.

O objetivo da análise é identificar se ambas as amostras são semelhantes ou não. Se a resposta for sim, a suspeita de que a segunda infecção seja uma manifestação da primeira é maior. Se o segundo vírus for diferente e apresentar muitas mutações, a reinfecção se torna mais provável.

Porém, mesmo que as duas amostras fossem muito parecidas, a suspeita de reinfecção não poderia ser totalmente descartada, segundo o especialista. Isso porque, se o paciente for contaminado duas vezes na mesma região, por exemplo, o vírus não terá passado por muitas mutações e será mesmo semelhante.

“Em um intervalo muito longo, uma infecção que aconteceu em um país e a segunda em outro [por exemplo], você teve uma diversidade evolutiva maior do vírus. Então é mais fácil de dizer que são vírus bem diferentes”, comenta.

“[Mas] dependendo do local que você está avaliando, a diferença não é tão grande, mesmo que ocorra uma reinfecção. Não obrigatoriamente, por eu ter um vírus semelhante da primeira e da segunda vez, eu excluo que aquilo tenha sido reinfecção. Eu não confirmo, mas também não consigo excluir”, completa Max.

Mesmo que o sequenciamento do coronavírus fosse uma opção de fácil execução, os especialistas ainda encontrariam outra dificuldade. Em boa parte dos casos, segundo o infectologista, é difícil recuperar a primeira amostra coletada pelo paciente, pois ela pode ter sido descartada ou pode estar em um laboratório de difícil acesso.

“Nem todos os laboratórios guardam essa primeira amostra. As pessoas fazem o exame em diversos locais, então, tem que ficar entrando em contato com vários laboratórios para tentar recuperar a amostra dentro de uma lógica que, hoje, está todo mundo sobrecarregado”, diz.

Por outro lado, caso não seja possível identificar a reinfecção, as pesquisas ajudam a entender, pelo menos, como está a imunidade e a saúde em geral. Neste caso, os especialistas compreendem como o corpo se manifestou diante o vírus e, principalmente, esclarecem as dúvidas e medos do paciente.

“Mas, ao mesmo tempo, a gente vai tentando investigar o ponto de vista imune, o que acontece, a produção de anticorpo, como é a imunidade dessas pessoas, mais até para garantir para elas que essa doença se resolveu, pelo menos. Esse tipo de orientação e avaliação também é feita”, conclui.

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