Maioria das cidades do Alto Tietê mantém uso de cloroquina para tratar Covid-19 quando há indicação médica e autorização da família

Uso do medicamento ainda faz parte do protocolo do Ministério da Saúde para o tratamento de pacientes com a Covid-19, mas a Sociedade Brasileira de Infectologia recomendou que protocolo fosse abandonado.

Seis dos dez municípios do Alto Tietê ainda mantêm a cloroquina ou a hidroxicloroquina como protocolo para o tratamento de pacientes com a Covid-19. No entanto, segundo as prefeituras, a decisão sobre a prescrição ou não do medicamento fica a critério do médico que atende o paciente.

Estão neste grupo os municípios de Arujá, Biritiba Mirim, Guararema, Itaquaquecetuba e Mogi das Cruzes. Já Ferraz de Vasconcelos, Poá e Suzano informaram que adotaram o protocolo no início da pandemia, mas depois suspenderam a prescrição dos medicamentos. Salesópolis e Santa Isabel, apesar de cobranças da reportagem, não respondeu os questionamentos do G1.

Os nomes das duas medicações ganhou força para o tratamento de pacientes com o novo coronavírus depois que o presidente americano Donald Trump veio a público dizer que os resultados eram positivos nos casos tratados com as medicações. Na ocasião, pacientes com Lúpus e Artrite Remautoide do Alto Tietê relataram o desaparecimento dos remédios nas farmácias.

Em seguida, diversos estudos apontaram que não há eficácia da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com o novo coronavírus.

Ainda assim, o Ministério da Saúde mantém a indicação do medicamento para o tratamento da doença. A pasta federal chegou a pedir à Fiocruz que divulgasse a cloroquina como tratamento precoce de Covid-19.

A Sociedade Brasileira de Infectologia, no entanto, recomendou que a cloroquina e a hidroxicloroquina sejam “abandonadas” no tratamento de pacientes com o novo coronavírus. Segundo a entidade, os estudos comprovaram que a droga não foi eficaz e ainda trouxe complicações aos pacientes.

Um estudo brasileiro, realizado pela Coalizão Covid-19, apontou que, após 15 dias de tratamento, percentuais semelhantes dos pacientes (que tomaram ou não hidroxicloroquina) já estavam em casa “sem limitações respiratórias”. O percentual de óbitos foi igual em todos os grupos: 3%.

A cloroquina

O cardiologista do Hospital Ipiranga e do Ambulatório de Especialidades Médicas de Mogi das Cruzes, Paulo Eduardo da Costa Saraiva, explicou que a cloroquina é um imunomodulador. A medicação age na célula do paciente, especificamente no lisossomo. Segundo o médico, essa parte da célula é responsável por ajudar na defesa do organismo. Teoricamente, agindo desta forma, seria possível que a célula tivesse defesa mais eficaz contra a doença.

“Nos primeiros casos ainda na China eles começaram com uso como uma alternativa e obtiveram algumas respostas favoráveis. Porém como ninguém tinha medicação eficaz, ela apresentou resultados em pacientes moderados e graves. Os EUA viram como uma alternativa e, no início da pandemia, ela foi usada como uma solução”, explica Saraiva.

Porém com o avançar da doença e o conhecimento por meio do acompanhamento e estudo dos pacientes, não foi verificada eficácia. Ela era uma medicação coadjuvante, como não tinha nada específico, e ela era conhecida pelo tratamento em pessoas com malária, foi testada.

Atualmente, apesar de preconizado em protocolo do Ministério da Saúde para o tratamento de pacientes com a Covid-19, Saraiva disse que não usou e nem usa no tratamento de seus pacientes.

“Tanto os pacientes com a Covid-19 positivo, tanto aqueles que não têm e estão fazendo o uso indiscriminado, como se fosse um preventivo da doença, é uma alternativa errônea. Qualquer medicamento sem prescrição médica pode trazer malefícios. A cloroquina tem efeitos colaterais como todos os medicamentos, e o principal dela é cardiológico. Ela é desencadeadora de arritmia, e pacientes com problemas cardíacos podem ter o quadro de saúde agravado”, pontua.

Saraiva diz que, no entanto, com a ampla divulgação do medicamento pelo presidente Jair Bolsonaro, há pacientes e familiares deles que pressionam o médico a prescreverem a medicação. “Tenho amigos que estão prescrevendo mesmo sem a necessidade, para não causar mais problemas com os pacientes, ainda mais neste momento de pandemia”, diz.

Arujá

Em Arujá, a Prefeitura destacou que, de acordo com a Nota Informativa nº 9/2020, divulgada pelo Ministério da Saúde, a prescrição das medicações fica a critério do médico, sendo necessário que o paciente concorde com a inclusão da substância no tratamento, inclusive assinando um Termo de Ciência e Consentimento.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a partir da normativa ministerial, a pasta criou diretrizes municipais que prezam a conduta médica no tratamento da Covid-19. Assim, as decisões são norteadas pelo parecer médico, com a anuência do paciente.

Biritiba Mirim

Biritiba Mirim informou que segue usando hidroxicloroquina e cloroquina no tratamento de paciente com a Covid-19. Os medicamentos foram enviados pelo Ministério da Saúde e estão à disposição dos médicos para receitar aos pacientes. No entanto, fica à critério do próprio médico, o qual avalia o paciente.

Os medicamentos são receitados após avaliação e conduta médica. O próprio paciente assina um termo de autorização, caso o paciente não consiga fazer essa assinatura, um parente pode ser o responsável.

Em relação a outros medicamentos, até então, segundo a Prefeitura, não houve dificuldades para as compras.

Ferraz de Vasconcelos

Na cidade de Ferraz de Vasconcelos, em que a prefeitura mantém um Hospital de Campanha para tratar os pacientes com a Covid-19, a cloroquina foi usada nos tratamentos apenas no primeiro mês de funcionamento do local, em maio, tendo sido suspenso depois por inviabilidade dos estudos divulgados.

O espaço é administrado por uma Organização Social (OS), que foi quem comprou o medicamento. A cloroquina era usada apenas em casos mais graves. Não existe mais protocolo para o uso deste remédio.

A Prefeitura não tem encontrado dificuldade para comprar medicamentos e informou que é a OS quem faz isso e todas as demandas têm sido supridas para o pleno atendimento da população.

Guararema

A Prefeitura de Guararema informou que utiliza o protocolo vigente do Ministério da Saúde para o uso das medicações. Em relação à aquisição deles, a prefeitura disse que eles são disponibilizados pela Secretaria Estadual de Saúde. Eles não são utilizados para casos leves do novo coronavírus.

Itaquaquecetuba

No início da pandemia onde se discutia o uso desse medicamento, a Prefeitura de Itaquaquecetuba disse que adotou para o uso pacientes com um formulário de consentimento do familiar devido aos riscos e benefícios, onde foram disponibilizados a medicação por meio da Secretaria de Saúde do município em conjunto com o Ministério da Saúde e o Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê (Condemet) e, posteriormente, pela Organização Social da Santa Casa de Misericórdia de Birigui.

Atualmente, são usados em pacientes internados com diagnóstico confirmado de Covid-19, mediante protocolo e termo de consentimento do familiar.

Os pacientes da cidade são tratados ainda com antibióticos, corticoides e analgésicos, além de exames na admissão e internação para a confirmação da doença. Já na fase grave tem outra situação, em que o paciente pode evoluir para uma entubação e uso de respirador, portanto cada caso é avaliado e conduzido com uma conduta de UTI, de acordo com a Prefeitura.

A cidade também informou que “enfrenta dificuldades na aquisição de emergência, porque são os que estão com uma demanda grande” e que há falta de matéria-prima, mas disse que está abastecida com as principais medicações.

Mogi das Cruzes

O uso da cloroquina e da hidroxicloroquina é uma conduta médica e não é preconizada pelo Comitê Gestor criado pela Prefeitura de Mogi das Cruzes. Segundo a administração municipal, as medicações foram enviadas à cidade pelo Estado.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que segue a critério médico. Por se tratar de uma doença nova, o paciente precisa ser orientado e autorizar o seu uso para os fins específicos. Os medicamentos são prescritos pelos médicos de acordo com a sintomatologia e comorbidade do paciente. Utiliza-se medicamentos sintomáticos (exemplos: antitérmico e analgésico).

Quanto à dificuldade para a compra, a administração municipal disse que a única classe de medicamentos que enfrenta problemas, em todo o país, são os medicamentos utilizados para pacientes que precisam ser entubados.

Poá

Até a última quinta-feira (23), Poá informou que ainda não tinha realizado o uso da cloroquina. No início da pandemia, foi estabelecido na cidade um protocolo para o uso em casos graves, mediante assinatura de termo de consentimento dos familiares ou paciente caso o mesmo estivesse consciente.

No entanto, o protocolo foi reavaliado pela equipe multidisciplinar da Secretaria de Saúde, pelo Comitê de Infecção Hospitalar, Comitê de Enfrentamento ao Covid-19, equipe da Vigilância Epidemiológica e hoje não é mais indicada a medicação.

Na cidade é aplicado o protocolo de atendimento e manejo clínico, e os medicamentos utilizados podem variar conforme a gravidade do paciente, podendo ser usado desde medicamentos para alívio de sinais e sintomas, para os casos leves a moderados.

Nos casos graves pode ser associado antibióticos, corticóides, anticoagulantes, drogas vasoativas, conforme quadro clínico apresentado. Atualmente, a cidade enfrenta dificuldade de comprar medicamentos (sedativos e relaxantes musculares) usados em pacientes que necessitam entubação.

Suzano

A Secretaria de Saúde de Suzano informou que o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes da rede municipal de Saúde segue as orientações técnicas, ficando a critério do médico, conforme a avaliação de cada caso específico, a administração de tais medicamentos.

“É uma decisão do próprio médico, que está em contato direto com o paciente e sabe da necessidade ou não da substância. Os médicos brasileiros já conhecem bem esta medicação – não é um medicamento novo. Assim, ela só pode ser usada com indicação médica”, esclarece o secretário municipal de Saúde, Luis Claudio Guillaumon.

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