Vereadores e empresários suspeitos de corrupção são levados para a cadeia de Mogi

Os vereadores Carlos Evaristo da Silva (PSB), Diego de Amorim Martins (MDB), Jean Lopes (PL) e Mauro Araújo (MDB) já estão na cadeia. O vereador Francisco Moacir Bezerra (PSB) cumpre prisão domiciliar por problemas de saúde. Investigação do MP apura crime de corrupção na Câmara, na Saúde e no Semae

Quatro vereadores de Mogi das Cruzes e três empresários presos na manhã desta sexta-feira (4) por suspeita de envolvimento em corrupção, chegaram, por volta das 16h, à cadeia da cidade. Eles estão presos preventivamente por conta de uma investigação do Ministério Público que aponta que os empresários compravam apoio para aprovar leis encomendadas por eles.

Os vereadores presos preventivamente são:

  • Carlos Evaristo da Silva (PSB);
  • Diego de Amorim Martins (MDB) – o Diegão;
  • Francisco Moacir Bezerra (PSB);
  • Jean Lopes (PL);
  • Mauro Araújo (MDB).

Também foram presos, segundo a promotoria, Carlos César Claudino de Araújo, empresário e irmão de Mauro Araújo, que seria o operador financeiro do esquema; e os empresários Joel Leonel Zeferino e Willian Casanova, do ramo da construção civil, sendo que o último também é funcionário da Câmara. Além de empresário Willian Casanova também é consultor de assuntos governamentais. A folha de pagamento de maio, a última publicada pelo site do Legislativo, indica salário bruto de R$ 10.374,23.

Vereadores e empresários suspeitos de corrupção são levados para a cadeia de Mogi
Vereadores chegam na cadeia de Mogi das Cruzes para cumprir prisão preventiva — Foto: Natan Lira/ G1

De acordo com a polícia, o vereador Francisco Moacir Bezerra está em prisão domiciliar por conta de um problema de saúde. Depois de preso durante a manhã, ele passou mal e foi levado para atendimento pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

A polícia ainda busca por um sexto vereador, dois empresários e um funcionário da Câmara. A reportagem procura pela defesa dos suspeitos.

A operação “Legis Easy” faz parte de uma investigação da Promotoria do Patrimônio Público e envolve, ao todo, 12 mandados de prisão, sendo que oito foram cumpridos durante a manhã desta sexta, além de 12 de busca e apreensão. Policiais estão nas ruas na tentativa de cumprir outros quatro.

Depois de preso, o vereador Francisco Moacir Bezerra passou mal e foi levado para atendimento pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

Depoimentos

O Ministério Público informou ao G1 que o vereador Antonio Lino (PSD) e Pablo Bezerra, filho do vereador Francisco Bezerra, são considerados foragidos, pois já apresentaram advogados e estão cientes do mandado de prisão contra eles.

Segundo o MP, Pablo Bezerra tem uma organização social. O MP detalhou que o vereador Francisco Bezerra, quando era secretário municipal de Saúde, contratou a empresa Fundação ABC para gerir o Hospital Municipal de Brás Cubas e a Fundação ABC contratou a empresa do filho de Bezerra para gerir um equipamento de saúde em Santos.

De acordo com o Ministério Público, o vereador Francisco Bezerra não foi ouvido por causa do problema de saúde que apresentou durante a manhã.

Sobre o depoimento do vereador Mauro Araújo, o MP informou ainda que Araújo declarou que o dinheiro que ele repassou para os vereadores foi de empréstimos. Os vereadores também falaram que receberam empréstimos de Araújo.

Joel Leonel Zeferino foi o único empresário ouvido pelo Ministério Público. De acordo com o MP, ele declarou que pagou despesas para Mauro Araújo de viagens, entre outras coisas, porque são amigos. O MP apontou que o dinheiro veio por meio do Serviço Municipal de Águas e Esgotos (Semae) e essa é a segunda parte da operação que visa saber se tem alguém da autarquia envolvido no esquema.

O Ministério Público detalhou que esse dinheiro veio por meio de uma empresa que era de José Pedro Beraldo, que já morreu, mas esse contrato continua. Segundo o MP, o dinheiro vinha do Semae, passava pelo vereador Mauro Araújo, que passava para os outros vereadores.

O MP informou também que foi a empresa de Zeferino que fez a minuta da lei de uso e ocupação do solo de número 7.201. Essa lei iria beneficiar o empresário que atua no ramo da construção civil.

O MP explicou que neste caso específico, o problema está no empresário fazer um projeto da lei de uso e ocupação do solo da cidade, sendo que é do ramo dele e, assim, seria beneficiado.

A investigação é continuidade de uma operação realizada no gabinete do vereador Mauro Araújo em novembro de 2019, quando houve a apreensão de celulares e documentos. Também foi decretada a quebra de sigilo bancário.

A investigação

De acordo com a promotoria, a investigação aponta corrupção na Câmara e em contratos com a Secretaria Municipal de Saúde de Mogi das Cruzes e com o Serviço Municipal de Águas e Esgotos (Semae).

Por meio de cruzamentos de dados entre conversas de WhatsApp, documentos e quebra de sigilo bancário, a promotoria identificou três empresas usadas para lavar dinheiro e quem eram os beneficiados pelos repasses financeiros.

Segundo o MP, as empresas são a WA, de Mauro Araújo; a MLC do irmão dele, Carlos César Claudino de Araújo; e a Casanova Mix, uma empresa da área de materiais de construção de Willian Casanova. As empresas, então, segundo a investigação repassavam dinheiro para outros vereadores.

A verba, de acordo com o Ministério Público, servia para comprar apoio na Câmara para aprovar leis encomendadas pelos empresários. O esquema, de acordo com a Promotoria do Patrimônio Público, envolvia empresas com contrato com a administração pública, que repassam para empresas ligadas ao Mauro Araújo, que, depois, repassam para os vereadores em troca de apoio político.

A investigação apura se houve organização criminosa, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro e está em andamento, mas a justiça decretou as prisões preventivas. O prazo para oferecimento de denúncia é de dez dias.

Posições

Um perfil do vereador Diego de Amorim Martins (MDB) em uma rede social publicou um post afirmando que ele é inocente e disse até que ele não foi preso, apesar de a Justiça ter sim determinado a prisão. O parlamentar afirma que está colaborando com os esclarecimentos, que tem uma vida pautada pela transparência e que está sendo perseguido.

Neste sábado (5) ele informou, por meio de nota, que não sabia o que estava acontecendo quando foi levado ao Ministério Público. “Sabia que não tinha feito nada de errado e, portanto, pensei que iria ao MP apenas para depor. Só me dei conta de que realmente ficaria detido depois. E estranho que isso tenha acontecido próximo às eleições e reafirmo que irei provar minha inocência, afinal, até agora meu trabalho só tem sido pautado por ações positivas e justas e não tenho nenhuma passagem criminal”, declarou.

A defesa de Mauro Araújo informou que está à disposição da Justiça para que os fatos sejam apurados o mais breve possível. “Aguardamos informações para os próximos passos, mas estamos tranquilos e confiantes de que a verdade em breve será estabelecida. Confiamos nas instituições, principalmente no poder judiciário”, completa anota.

O gabinete de Jean Lopes também se manifestou sobre o caso e disse que está trabalhando nas medidas legais cabíveis para o esclarecimento do caso e a liberdade do vereador. “Compreendemos que a prisão foi equivocada e ilegal. A marca de seu mandato sempre foi a da probidade, transparência e honestidade, lutando pelos direitos dos cidadãos de nossa querida Mogi das Cruzes”. Destacou, ainda, que não há indícios no processo que vinculem Jean Lopes a quaisquer atos ilícitos ou imorais.

O advogado Dirceu Câmara Valle representa o empresário Leonel Zeferino e afirmou que vai buscar revogar a prisão. “Os esclarecimentos já foram prestados pelo empresário Leonel Zeferino, inclusive com documentos, e também os esclarecimentos que foram prestados pelas autoridades políticas ouvidas, eu acredito que não há nenhuma substância mais na acusação. Quero crer, pelo bem da justiça, que vai ser revista e revogada qualquer medida em desfavor deles”, afirmou.

A Câmara Municipal de Mogi das Cruzes informou que recebeu da Justiça, na tarde desta sexta-feira (4), uma determinação de afastamento do vereador Francisco Moacir Bezerra de Melo Filho (PSB), em razão de prisão preventiva na modalidade de prisão preventiva domiciliar, e que está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações no processo que segue sob sigilo judicial. De acordo com a Câmara, sobre os demais fatos, não foi oficialmente notificada, ficando impossibilitada de se pronunciar a respeito.

A Fundação do ABC informou que não foi procurada pelo Ministério Público para prestar nenhum tipo de esclarecimento sobre seus contratos e que desconhece o teor da investigação realizada em Mogi das Cruzes.

De acordo com a fundação, ela é responsável pela gestão da UPA Central de Santos, unidade que deu início a contrato com a empresa São Francisco Gestão e Terceirização de Serviços em Saúde em junho de 2018, vencedora do certame público S0049/2018.

“A gestão da Fundação do ABC no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes teve início somente um ano mais tarde, em junho de 2019, após a FUABC apresentar a melhor proposta de trabalho e sagrar-se vencedora do chamamento público N° 002/2019, da Secretaria Municipal de Saúde de Mogi das Cruzes, cujo objeto é o gerenciamento, operacionalização e execução dos serviços de saúde da unidade hospitalar. Apesar de não ter sido procurada, a Fundação do ABC adianta que está à disposição para prestar todo e qualquer esclarecimento que se faça necessário.”

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