Por medo do coronavírus, gestantes do Alto Tietê lidam com mudanças na rotina e escolhem parto domiciliar

Chá de bebê, compra de enxoval e apoio da família no pós-parto são revistos por medo de contaminação da doença. O parto domiciliar também virou alternativa.

Com medo da contaminação pelo novo coronavírus (Covid-19), gestantes do Alto Tietê estão deixando de lado diversos detalhes que envolvem o nascimento de seus filhos. Chá de bebê, enxoval, visitas na maternidade e, inclusive, o parto, são revistos para garantir a saúde da mãe, da criança e da família.

Para algumas, o hospital passou a ser visto com preocupação e o parto domiciliar se tornou uma prioridade, caso tudo se encaminhe bem. Para outras, a ausência da família no pós-parto é o ponto mais doloroso. São decisões que mexem ainda mais com o estado emocional, mas que as unem em um mesmo sentimento: o de cuidado.

Especialistas aconselham que o medo não pode ser o motivo para a escolho pelo parto domiciliar. Profissionais em hospitais reforçaram cuidados para aumentar a segurança das mães, bebês e acompanhantes no pré e pós parto.

“Eu penso em não criar nenhuma expectativa após o nascimento do meu filho, apenas seguir as orientações corretas para a minha saúde e para a saúde dele”, diz a terapeuta Nathália Rodrigues Garcia Schinzari, de Mogi das Cruzes.

Mudança de planos

Aos 34 anos e à espera de Gael, que deve nascer em julho, Nathália viu sua rotina de gestante mudar totalmente com a chegada do novo coronavírus. A ioga, que antes era presencial, passou a ser feita à distância. O pilates ficou de lado.

Os planos de fazer um chá de bebê e de comprar as roupinhas do filho na capital, assim como as fotos do típico ensaio de gestação, também estão prestes a ser cancelados.

“O enxoval, por exemplo, eu vou fazer online. Estou comprando as coisas. Tudo pela internet mesmo. Eu ganhei muita coisa também, mas o restante que está faltando, tudo, eu vou comprar pela internet. As fotos eu ainda não sei, acredito também que não vai ter fotos com fotógrafo”, comenta.

O pré-natal continua, mas agora com cuidados a mais. A máscara, por exemplo, virou acessório indispensável. “O ultrassom eu faço com o médico, eu estou indo pessoalmente, estou indo de máscara, a equipe está toda de máscara também. O pré-natal com a ginecologista obstetra também tenho feito presencial. Também de máscara”, declara.

Na casa da jornalista Giovanna Balogh, que é mãe de dois e agora espera pelo terceiro bebê, uma menina, os itens que antes eram considerados essenciais também vão ter que ficar para depois por causa do Covid-19.

“Roupinha eu já tinha muita que eu herdei de uma prima minha que teve gêmeas, então roupa não é um problema. O que está faltando são coisas de decoração do quartinho, que vão ficar para depois. Um trocador para cima da cômoda eu não tenho e estou vendo de comprar. Não sei se vale a pena porque não quero ficar expondo as pessoas da loja de trazer pra mim”, diz.

“Algumas coisas que eu achava super necessário, estou deixando para depois. Eu falei: ‘ah, o trocador da cômoda vai ser um edredom dobrado com alguma coisinha em cima, uma fraldinha de tecido’”, ri a grávida.

Na casa da jornalista Giovanna Balogh, que é mãe de dois e agora espera pelo terceiro bebê, uma menina, os itens que antes eram considerados essenciais também vão ter que ficar para depois por causa do Covid-19.

“Roupinha eu já tinha muita que eu herdei de uma prima minha que teve gêmeas, então roupa não é um problema. O que está faltando são coisas de decoração do quartinho, que vão ficar para depois. Um trocador para cima da cômoda eu não tenho e estou vendo de comprar. Não sei se vale a pena porque não quero ficar expondo as pessoas da loja de trazer pra mim”, diz.

“Algumas coisas que eu achava super necessário, estou deixando para depois. Eu falei: ‘ah, o trocador da cômoda vai ser um edredom dobrado com alguma coisinha em cima, uma fraldinha de tecido’”, ri a grávida.

Thaís, que sempre quis que o parto fosse normal, também espera que a primeira filha nasça em casa. Ela chegou a escolher uma maternidade para a chegada de Sara, mas com receio das restrições de acompanhantes, decidiu que o próprio lar será uma boa opção.

“A gente sabe que lá na frente, caso essa disseminação fique muito aguda, muito complicada, a tendência é que acompanhante não possa entrar no hospital. Eu estou pensando seriamente em ter um parto domiciliar. Minha gestação está favorável para isso, de ter um parto normal”, afirma a engenheira.

Para isso, ela contratou uma equipe de enfermeiras obstetras e diz que sua médica estará preparada para caso uma intervenção seja necessária. A ideia, segundo ela, é que o ambiente hospitalar seja a última opção.

“Sinceramente, eu não gostaria de ter que ir para o hospital. Eu estou bem certa que eu quero um parto domiciliar mesmo. Seria mais num caso de alguma intercorrência mesmo, de não conseguir ter o parto normal, ter que ir para cirurgia, fazer uma cesárea, aí não tem outro jeito. Mas meu primeiro plano é fazer o parto domiciliar mesmo, não sair de casa”, declara.

Já Giovanna, que também é doula e consultora em amamentação, lembra que o medo não pode ser o motivo dessa escolha. Ela também decidiu ter um parto domiciliar, mas não pela pandemia, embora se sinta segura em casa.

“Qualquer momento, de exame, de consulta, é um momento de tensão. Sair de casa já é uma tensão. Se eu puder ter meu bebê dentro de casa, que é um lugar que a gente está aqui fazendo a quarentena, fazendo o isolamento, tomando todos os cuidados necessários, aqui é o melhor lugar para ela nascer”.

“A mulher não pode escolher o parto domiciliar por medo do hospital, por medo da Covid. Tem que ser uma escolha feita antes. Envolve vários fatores. A mulher tem que estar tranquila com o ambiente em que ela vai ter o bebê”, explica a jornalista.

A recomendação é a mesma dada pela Roselane Gonçalves Feliciano, que é enfermeira obstétrica há mais de 30 anos, docente do curso de obstetrícia na Universidade de São Paulo (USP). Ela explica que o parto domiciliar propicia conforto, mas que essa escolha deve ser feita com antecedência e cautela. Segundo Rose, é preciso que haja confiança entre a mulher e os profissionais envolvidos no parto.

“A mulher precisa ser assistida por uma equipe em que ela confia. A confiança é uma condição primordial para que ela possa ter seu bebê em casa. A confiança só é conquistada por meio de uma relação próxima da mulher e a família com os profissionais que vão dar assistência a eles no momento do parto. O vínculo entre esses profissionais, essas mulheres e suas famílias, é que vai dar a sustentação para segurança de todo o processo”, diz.

Para quem já está prestes a dar a luz, mas ficou com medo do parto hospitalar, Roselane dá um conselho. Ela lembra que os hospitais também estão preparados para atender as gestantes neste momento e que tomam todos os cuidados necessários para que não ocorra contaminação.

“Eu diria para essa mulher ir para o hospital e confiar. Eu sou profissional de saúde, também atuo em hospitais. Os hospitais estão sendo organizados para acolher essas mulheres, mulheres que tenham uma saúde normal, que não apresentem nenhum sinal de acometimento pelo vírus, estão sendo atendidas normalmente. O que os hospitais e maternidades estão fazendo é organizando o fluxo de atendimento”.

“Os atendimentos estão sendo sistematizados para garantir o melhor cuidado para todas as mulheres”.

É o que diz também a gerente de enfermagem Fernanda Reple, que atua em um hospital maternidade de Suzano. Para garantir a segurança das mães e dos recém-nascidos, a unidade fez adaptações. A entrada do pronto atendimento de ginecologia ganhou um fluxo próprio. No pronto socorro de ginecologia as gestantes com sintomas respiratórios são separadas.

“Ao entrar na recepção é questionado se ela tem sintomas respiratórios. Setiver, é fornecida a máscara e vai direto para uma sala exclusiva. As demais gestantes, que não têm sintomas respiratórios, permanecem na espera exclusiva da GO [ginecologia e obstetrícia]”, comenta.

Os cuidados para o parto também ficaram mais rígidos. As visitas foram restringidas, para que a chance de proliferação do vírus seja reduzida. “A gente orienta para que venha somente com um acompanhante e que esse acompanhante, de preferência, não seja o idoso”, afirma a gerente, que lembrou que o acompanhante não pode ter sintomas suspeitos.

“A gente sabe que esse momento é único, mas a prioridade é preservar a vida”, diz Fernanda.

Independentemente da decisão, segundo Roselane, é fundamental que o procedimento seja acompanhado por profissionais capacitados, que possuam equipamentos apropriados e que estejam treinados para lidar com eventuais urgências. Com estes cuidados, o parto hospitalar e o domiciliar serão igualmente seguros.

Por fim, ela lembra que o parto domiciliar deve ser escolhido por uma família que tem clareza de seus benefícios. “A mulher que escolhe o domicílio para dar a luz está convencida de sua capacidade em parir. Ela acredita na potencialidade do seu corpo. Ela amadurece essa escolha ao longo do tempo. Ela não tomou a decisão por medo”, afirma.

O que esperar

Também é difícil a decisão de manter as pessoas queridas longe em um momento em que os abraços e beijos de boas-vindas são tão especiais. Giovanna, por exemplo, relata que se preparava para fazer um chá de benção, alternativa ao chá de bebê que busca exaltar e fortalecer a mãe prestes a parir, mas teve que desistir da ideia. O carinho das amigas e a ajuda da mãe, diferentemente das outras gestações, serão à distância.

“Não tenho nenhuma rede de apoio. Eu queria que a minha mãe ficasse comigo como ela ficou nas outras duas vezes que eu tive meus filhos, ela ficou uns dias comigo, me auxiliava tanto com bebê, cuidar da roupa, da casa, cuidar de mim, principalmente. Acho que isso que toda nova mãe quer é ter a mãe do lado”, diz a jornalista.

Os avós terão que conhecer a neta por fotos e vídeos. Os últimos detalhes, como a lavagem do enxoval e a organização das peças, pela primeira vez, serão feitos sem ajuda.

“Já foi motivo de vários choros meus aqui. Estou lavando o enxoval e é muito ruim. Minha mãe sempre me ajudou a lavar, arrumar o quartinho, dobrar as roupinhas, passar. Dessa vez não vai ter nada disso. Nos primeiros dias em que eu lavei o enxoval, as roupinhas, chorei bastante. Foi muito duro”.

Thaís também não vai poder contar com a tia, que a ajudaria no pós-parto, e nem com o pai, que a substituiria em sua empresa. Mãe de primeira viagem, ela e o namorado vão dividir tarefas para lidar com a nova rotina.
“Existe essa insegurança, realmente, que vai estar eu e meu namorado para tentar conciliar todas essas questões. Para uma primeira gestação que é algo totalmente novo. A maternidade pra mim é algo novo na vida. Então, sim, estou bem insegura nesse sentido de suporte”, diz.
“Eu não imagino que eles [meus pais] vão conhecer ela recém-nascida. É uma coisa que eu trabalho a longo prazo, tento não pensar muito nisso e viver um dia por vez, se não eu vou enlouquecer. Eu tenho isso que se eu ficar pensando que é só em setembro, outubro, que as coisas vão voltar ao normal, qualquer um enlouquece. Eu vivo um dia por vez. Tento não sofrer nesse sentido e pensar que vai passar”, conclui Giovanna.

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