Após 13 anos em Mogi, Galpão Arthur Netto vai fechar as portas

Após 13 anos em Mogi, Galpão Arthur Netto vai fechar as portas

Espaço vai encerrar as atividades após o Festival Dente-de-leão, que será realizado a partir de terça-feira (1º). Segundo os gestores, as principais dificuldades são a falta de dinheiro para arcar com as contas do espaço e a redução do público e de alunos em oficinas.

Após 13 anos funcionando como espaço cultural, em Mogi das Cruzes, o Galpão Arthur Netto vai fechar as portas por falta de verba neste mês.

O local vai encerrar as atividades após o Festival Dente-de-leão, que será realizado entre os dias 1º e 19 de outubro.

Situações deste tipo têm sido frequentes na região. No ano passado, o espaço cultural do grupo Contadores de Mentira, em Suzano, também fechou as portas por falta de recursos.

Neste ano, foi o Casarão da Mariquinha, em Mogi, que deixou de funcionar depois que o dono pediu a liberação do imóvel.

Atualmente o Galpão é administrado por três gestores: Thiago Costa, Nilceu Filho e Izabela Zandoná.

Segundo eles, a principal dificuldade é a falta de dinheiro para manter as atividades e arcar com as contas do espaço.

Costa afirma que tem sido complicado fechar as finanças do espaço e há ainda outros fatores. “O fechamento em si é uma situação não só financeira, mas atrelada a uma falta de pessoal para trabalhar lá”.

O Galpão não possui vínculos com a Prefeitura, mas há um ano foi classificado no edital do Programa de Fomento à Arte e Cultura (Profac) e, desde então, os gestores usam o dinheiro para pagar o aluguel do espaço, que segundo Costa, é de R$ 3,2 mil por mês.

Além disso, no local havia quatro professores e cada um recebia R$ 3 mil por ano, mas, com a dívida chegando aos 10,5 mil, ele diz que ficou difícil manter o espaço aberto. “Nesse último ano tínhamos dinheiro para pagar o aluguel, mas não tínhamos para comprar copo descartável”, conta um dos gestores, Nilceu Filho.

O secretário municipal de Cultura, Mateus Sartori, afirma que, por meio do edital, a Prefeitura repassou ao espaço R$ 50 mil.

“Eles foram contemplados no nosso programa de fomento, como foi o caso do Casarão da Mariquinha, escola AJPS de Artes, recentemente o Missão Intensidade, território lá no Novo Horizonte e também o Casarão do Chá. Temos hoje cinco territórios fomentados e cada um deles recebe esse valor justamente para ajudar a bancar o custeio do equipamento”, explica o secretário.

Sartori diz que lamenta o fechamento de um espaço cultural da cidade. “Lamentamos o fechamento do espaço, mas não só do Galpão, assim como qualquer outro equipamento de cultura que fecha, é muito triste para cidade”.

Ao longo dos 13 anos, o local foi mantido com recursos próprios dos artistas e verba arrecadada com os espetáculos. Mas, segundo os gestores, as dívidas acumuladas os deixaram sem opção. “Tem uma despesa há mais de um ano que não conseguimos quitar”, diz Filho.

O espaço recebia três oficinas de teatro adulto e uma de circo com até 20 alunos cada. De acordo com Filho, ao longo dos 10 anos eles formaram turmas de teatro adulto, adolescente e infantil além da realização de oficinas regulares de práticas circenses.

Os gestores apontam ainda a falta de público como outro fator que contribuiu para o encerramento das atividades.

“O público ajudava com dinheiro e, hoje, as pessoas que frequentam o Galpão para assistir os espetáculos e os alunos pagantes que participam das oficinas diminuíram extremamente. A gente não consegue mais bancar o aluguel com a ajuda dessas pessoas”, esclarece uma das gestoras e atriz, Isabela Zandoná.

O secretário de Cultura conta que a Prefeitura se colocou à disposição para ajudá-los financeiramente, inclusive com o festival de encerramento.

Sartori aponta que não houve interesse por parte dos gestores em manter o espaço aberto. Ele diz ainda que a Prefeitura fez a sua parte. “Eles disseram que não há interesse do próprio Galpão em seguir, acredito que tenha alguma coisa relacionada a gestão atual. A Prefeitura faz aquilo que é possível, mas lamentamos, nossa parte estamos fazendo”.

Os alunos

Para os alunos, o fechamento do Galpão traz comoção. “É uma tristeza muito grande para mim e olha que estou lá há pouco mais de um ano”, conta a aluna Dáfine Evelin Pereira.

O aluno e ator Guilherme Mattos diz que realizou um sonho ao participar do Festival Internacional de Teatro, Knots Nudos, em 2017. “O Galpão Arthur Neto mudou minha vida. Proporcionando muita alegria e amor”.

A Yasmin Guidella entrou no Galpão em 2018 para substituir uma atriz e, logo depois, foi convidada para participar do grupo definitivamente. “Lá é um espaço muito incrível, um ambiente agradável, tem uma estrutura ótima para ensaiar, eu fiquei encantada”, lembra.

Yasmin conta que o local é como se fosse a sua casa e que, com certeza, sentirá muita falta. “Eu fico muito triste, é uma perda muito grande para mim, sou muito grata por tudo o que aprendi e vou levar para sempre. É muito decepcionante porque era minha casa, eu praticamente vivia lá e vou sentir muita falta”.

A história

A história do Galpão Arthur Netto começou em 2006, quando o grupo da Companhia do Escândalo sentiu a necessidade de ter um lugar para ensaiar e, a partir daí, começou a procurar por um espaço.

O grupo encontrou o espaço em julho do mesmo ano, no Jardim Ivete, e planejava a inauguração para setembro, mas um dos atores foi agredido e morreu antes da realização desse sonho.

“No dia 5 de agosto de 2006, o Arthur foi agredido de maneira muito violenta, saindo de uma casa noturna às 4h da manhã. Eram duas ou três pessoas, mas o inquérito ainda segue e ninguém foi preso até hoje. Ele ficou internado por 15 dias, com sequelas psicológicas e físicas e, infelizmente, faleceu no dia 15 de setembro de 2006”, lembra o amigo de Arthur, Manoel Mesquita Junior.

Junior conta que todos sofreram muito com a perda. “Só fomos fazer atividades no espaço no final do ano, em homenagem a ele, a partir desse momento batizamos o Galpão de Arthur Netto”.

O grupo ficou três anos no local apenas com atividades internas e, quando novos artistas começaram a chegar, eles decidiram procurar um espaço maior.

“No dia 30 de junho de 2009, inauguramos o endereço atual. Foi aí que realmente abrimos ao público e começamos uma agenda intensa. Até agora formamos mais de 2 mil pessoas”, conta o fundador.

O Galpão Arthur Netto funcionou 10 anos na Avenida Fausta Duarte de Araújo, 23, em Mogi das Cruzes e, agora, anuncia o fim de seu ciclo.

Festival Dente-de-leão

Para simbolizar o encerramento das atividades o Galpão realizará entre os dias 1º e 19 de outubro, o Festival “Dente- de-leão: Sobre Romper o Asfalto para Provar Ser Existente”.

A Prefeitura apoiou o evento. “Em reunião com o pessoal do Galpão, nos colocamos à disposição para ajudá-los, dissemos que novamente abriremos os editais e que eles teriam condições de serem contemplados de novo pela importância do equipamento. A pedido do Galpão, fizemos a contratação de parte de produção executiva do festival, R$ 4,5 mil para duas semanas de atividades”, explica o secretário.

A programação conta com espetáculos teatrais, apresentações circenses, shows musicais, performances, exposições de artes plásticas e de fotografia, debates e rodas de conversa.

“O festival Dente-de-leão é o encerramento do Galpão Arthur Netto e, que este ciclo, libere pelo ar ‘a ideia de renascer em lugares diversos’. Queremos o Galpão em todos os cantos: No asfalto, vias públicas, bairros e escolas. Queremos cultura e cidadania por toda parte”, deseja o aluno e ator, Guilherme Mattos.

*Sob a supervisão de Fernanda Lourenço

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