Com aulas em antiga despensa e figurinos doados, professora de balé atrai comunidade para rotina de escola pública

Com aulas em antiga despensa e figurinos doados, professora de balé atrai comunidade para rotina de escola pública

‘A arte educa, a arte transforma’, diz Thamires Fernanda Costa Loponen, coordenadora de projeto que atende a 90 alunos de escola municipal de Mogi das Cruzes.

Na escola pública, levar algo diferente aos alunos traz sempre muitos desafios, que geralmente são os professores que encaram. É por isso que nesta terça-feira (15), Dia dos Professores, o G1 conta a história de Thamires Fernanda Costa Loponen, de 32 anos, que dá aulas de educação física e de balé em Mogi das Cruzes.

Dançar nunca foi o suficiente para Thamires. Ela precisava ensinar. Entre as aulas de educação física que leciona em uma unidade municipal e as apresentações festivas, típicas do ensino infantil, a professora encontrou a oportunidade de levar a dança para a rotina de dezenas de crianças carentes.

As aulas, primeiro, eram em uma sala comum, divididas com carteiras e cadeiras. Agora, são na antiga despensa da cozinha, que ganhou espelho, barras e pintura nova.

O trabalho também precisa do apoio da comunidade. Parte dos figurinos é doada e foram pais de alunos que ajudaram na pintura da nova sala. Em contrapartida, os familiares e vizinhos da escola também tem acesso à cultura aos assistir às apresentações, como de “O Quebra-Nozes”.

Hoje Thamires mostra que, aliada à arte, a educação é uma importante ferramenta de superação e transformação sociocultural.

A professora também busca abrir espaço para a inclusão, para o diferente. Um exemplo é que nessas aulas bailarina não precisa ser magra. Há espaço também para os meninos. “A arte educa, a arte transforma. Não é só dança, é uma discussão”, diz.

Mudanças

Dos 15 anos em que dá aula, seis se passaram na Escola Municipal Professora Heliana Mafra Machado de Castro, na Vila Cléo, onde leciona atualmente. Thamires conta que quando chegou à unidade encontrou um ambiente triste, alvo de vândalos e de reclamações.

“Em 2013, a escola era bem prejudicada. Era tudo pichado, tinha roubo, vandalismo e bullying. A comunidade, dentro e fora, não tinha muito respeito pela escola. Não tinham o hábito de participar das atividades e era comum que algum ambiente estivesse depredado”.

Como é bailarina clássica há mais de 20 anos e tem especialização em danças e expressão corporal, a professora era escolhida para ensaiar os alunos para as apresentações escolares. Do Dia das Mães ao Natal, ela sempre tinha uma coreografia nova para ensinar.

“Sempre tinha alguma festa e como sabiam que eu era bailarina, pediam para eu montar uma apresentação”, explica.

O que ela não esperava era que os breves ensaios, encaixados no dia a dia, se tornariam parte da rotina escolar.

“Começou a aparecer mais gente interessada. Os alunos tinham um desempenho tão bom, tinham tanta vontade de dançar. Na época a escola era do Estado e estava passando pelo processo de municipalização para ganhar período integral. Então, decidimos incluir as aulas de dança na grade curricular”.

A iniciativa simples, deu origem ao projeto “A Arte do Balé”, que reúne cerca de 90 crianças de 6 a 12 anos em aulas diárias. Pouco a pouco, o projeto cresceu, transformou pequenas vidas e mudou para melhor a relação entre a escola e a comunidade.

Aulas na despensa

Não é difícil encontrar o lugar onde a arte acontece no Heliana Mafra. Em um canto do pátio, uma portinha estampada com o desenho de dançarinos anuncia o projeto. No entanto, quem entra e vê a pequena sala onde os bailarinos se alongam e aprendem novos passos, não imagina que antes eles precisavam dividir espaço com mesas e cadeiras em uma sala de aula comum.

“No começo a gente ensaiava em uma sala de aula lá em cima. Todo dia, quando a gente chegava, tinha que afastar as mesas e abrir um espaço para dançar. Perdia tempo. Hoje temos essa sala, que ainda é pequena, mas que é o nosso lugar”, conta.

A sala onde hoje acontecem os ensaios, antes, era usada como dispensa para a cantina. Embora pequena, ela possui barras de apoio e espelhos.

As apresentações também eram um desafio. Em uma delas, quando apresentaram o clássico “O Quebra-Nozes”, tiveram que lidar com a chuva, já que a escola não tem teatro. “Era uma sexta-feira à noite. A gente fez um palco a céu aberto e choveu. Pensei ‘meu Deus, vai dar tudo errado’, aquele desespero batendo, a gente achando que não ia dar certo, mas deu”, lembra.

Mesmo com chuva, pais e vizinhos da escola foram prestigiar. “A comunidade toda em peso. Eles vieram, sentaram, assistiram, ficaram em silêncio. Viram uma obra que, normalmente, eles não teriam vontade. Mesmo chovendo, os pais vieram, ficaram muito felizes”.

A dificuldade em conseguir trajes também é driblada aos poucos. Há alguns meses, uma amiga do projeto conseguiu a doação de figurinos e, atualmente, o “A Arte do Balé” conta com o apoio de uma costureira, que trabalha por um valor simbólico.

Balé para todos

De todas as superações que a professora enfrenta, as mais marcantes envolvem os próprios alunos. Por trás dos tutus e sapatilhas, muitas histórias de superação se escondem.

Lara Isabel Vital Silva, de 9 anos, foi uma das crianças que chegou com um desafio e tanto. Quando tinha cerca de 4 anos, a família notou que a menina tinha algum problema ao andar. Ao consultar especialistas, ouviram que ela nunca poderia dançar, mas Thamires resolveu apostar na pequena.

“Percebemos que ela andava mancando e começamos a levar no ortopedista. Alguns médicos com quem passamos disseram que a Lara não poderia correr, fazer esporte. Balé nem pensar. Ele privou a Lara de algumas coisas. Mas aí encontramos o Heliana Mafra e viemos para cá. Tivemos essa grandeza de encontrar o “A Arte do Balé”, onde a Thamires tinha esse comprometimento todo. Ela falou para mim ‘Patrícia, vamos fazer com a Lara dentro do limite’. Hoje, no espetáculo do quebra-nozes, a Lara é uma das principais”, conta orgulhosa a mãe Patrícia Gomes Vital.

Lara foi diagnosticada com um deslocamento de patela. A mãe diz que chegou a procurar outras escolas de dança, mas ouviu que a menina poderia ficar frustrada por não poder se alongar como outros alunos. Hoje ela agradece a professora e diz que o projeto transformou a história da família.

“Para nós é de uma grandeza fora do normal. Sou grata ao projeto, que traz a gente para esse mundo que, financeiramente não dá,e que aqui a criança participa. Agradeço a Thamires que está com a gente nessa luta”, completa a mãe.

Quem também fala da professora com gratidão é Sônia Maria Lucena Góes Chagas, mãe da pequena Tamires. Ela conta que a filha praticava ginástica artística, mas que deixou as aulas depois que uma professora fez críticas ao seu corpo.

No Heliana Mafra, no entanto, foi diferente. A mãe conta que a filha reencontrou a autoestima e autoconfiança ao ser apoiada pela professora Thamires.

“Em algumas situações exigem padrões, pedem um determinado porte físico. Falam que para ser uma bailarina tem que ser esguia, magra. Por um momento, ela sofreu um preconceito por não se enquadrar nesses padrões. Aqui, além de ser abraçada com muito carinho, ela se desenvolveu muito”, diz.

Inspiradas nas histórias das colegas, dezenas de alunas correm para compartilhar as próprias superações. Camily Lohana Silva Furtado, de 11 anos, diz que a iniciativa a fez realizar um sonho. “Desde pequenininha eu sempre quis ser bailarina”, conta.

Isabela Letícia Costa Martins aproveita o relato da amiga e fala sobre como evoluiu com as aulas de Thamires. “Eu dançava de qualquer jeito. Dançava igual um robô, mas agora me soltei. Eu gosto muito”. Outra pequena bailarina, Luísa Santos Conceição, também diz amar as aulas. “Eu dançava em casa, mas aí eu aprendi várias coisas com ela e agradeço até hoje”.

Um fôlego novo para a escola

Para a professora, a comunidade passou a respeitar mais a escola. Segundo Thamires, pichações e atos de vandalismo ficaram no passado.

“O projeto criou uma parceria, uma nova relação entre escola e comunidade. Todos passaram a cuidar, participam das apresentações e colaboram com o que podem. Perceberam que a escola também é parte deles e que eles são parte da escola”, conta.

Ela deve essa transformação ao estimulo da participação ativa de pais, alunos e de toda a comunidade, e se diz honrada por mostrar que a escola pública merece respeito. “Há muito tempo não temos vandalismo. Hoje sei que posso colar um muralzinho na parede porque ninguém vai rasgar. Eles [alunos e visitantes] cuidam, criaram carinho”.

“A escola pública está bem marginalizada, é sinônimo de má qualidade, de falta de comprometimento do professor. Quando você vem com um projeto desse, consegue chamar esse olhar de volta, dá um brilho para a escola pública. Isso é muito importante.”

Com as famílias não é diferente. Estar ao lado dos alunos e auxiliar nas produções torna tudo muito especial, afirma a educadora. “Quando a família está empenhada, eu vejo que elas dão mais valor. Se fosse uma coisa que eles só veem tudo pronto, às vezes, não teriam noção do quão difícil é deixar aquele espetáculo daquela maneira.

Os desafios continuam

Anualmente, para angariar fundos para cenários e figurinos, a coordenação da unidade promove festas, como o “Dia do Pastel”, que recebe os moradores do bairro e os faz entender a importância deles para a escola. No entanto, Thamires diz que é limitada e que precisa transformar o pouco que o projeto tem em grandes ideias.

“As vezes dá vontade de fazer certo tipo de cenário e eu não consigo. Sou limitada nos recursos, porque às vezes fica caro. Do nosso jeito fica legal? Fica, mas dá vontade de ir além”, diz.

Para ela, uma estrutura mais adequada também faz falta. “Para o tanto de gente que tem, as vezes não é viável. Nas aulas, tenho que fazer um revezamento. Metade senta, metade dança. Depois troca. Eu acho que o ideal seria ampliar essa sala. Muitas vezes, num ensaio maior, eu tenho que ir para o pátio, porque a salinha não comporta.”

A Secretaria de Educação de Mogi das Cruzes informou que não recebeu pedido da escola para uma sala maior e disse que vai estudar a possibilidade quando receber o pedido. Ainda segundo a secretaria, o mesmo projeto é oferecido também nas outras unidades que fazem parte do programa Escola de Tempo Integral.

“A Secretaria de Educação atua de acordo com a demanda das escolas e atende de acordo com as possibilidades”, informou.

Convencer os pais a se aproximarem do projeto e a valorizarem a arte também são desafios. “Eles [familiares] acham que é só uma dança, falam ‘esse ano não vai dar para ir, mas ano que vem eu vou’, sendo que a gente se preparou o ano inteiro. A gente está lá desde fevereiro fazendo o trabalho, para chegar em dezembro, ser o ápice do projeto, e eles acharem que não precisam ir”.

Mas apesar dos obstáculos, ela não deixa de lado a missão de educar. No espetáculo deste ano, marcado para 2 de dezembro, o tema será “Contos Infantis Às Avessas”. Ela levará aos palcos temas como o machismo, ao mostrar uma princesa que não precisa do príncipe; o racismo, ao exibir uma Branca de Neve negra; e o trabalho escravo infantil, com anões que fazem docinhos em vez de trabalharem em uma mina de carvão.

“São contos infantis, mas a gente não vai dançar do jeito que a gente sempre vê. Se eu for fazer isso, eu vou fazer uma arte que já está aí. Então, que incentivo vai ter para eles? Agora, se eu estou dentro de uma escola, eu tenho que ir além”, explica.

“A gente precisa dar um fôlego para essa comunidade e eu me sinto honrada por fazer parte disso. Eu acho que tem coisas que nada paga na vida. O projeto, na minha, é uma delas.”



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