Depois de relacionamento abusivo, psicóloga de Arujá cria ‘Escola de Solteiras’ e ressalta importância de autoconhecimento

Depois de relacionamento abusivo, psicóloga de Arujá cria ‘Escola de Solteiras’ e ressalta importância de autoconhecimento

Objetivo de Renata Costa Miranda é ensinar mulheres a trilharem o caminho do autoconhecimento e terem relacionamentos positivos. Psicóloga Bianca Mayumi defende mudança na forma de criar meninas e aponta como identificar sinais de um relacionamento abusivo.

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“Ah, já pode casar!”, “Sente que nem mocinha”, “Mulher só tem duas chances de ficar rica, uma quando nasce e outra quando casa”. As mulheres crescem ouvindo esse tipo de frase. Na construção do que é ser mulher na sociedade atual, essas afirmações têm perdido força, mas ainda têm espaço.

Para ajudar as mulheres a entenderem que não precisam agradar a todos e nem seguir a modelos para serem protagonistas da própria vida, a psicóloga Renata Costa Miranda, de Arujá, na Grande São Paulo, criou o que chama de “Escola de Solteiras”. Um treinamento para ajudar mulheres a escaparem de relacionamentos abusivos.

O conhecimento dela não vem apenas da teoria, mas também da vivência. Renata passou por um relacionamento abusivo e decidiu usar essa experiência para ensinar outras mulheres a evitar a situação.

Renascimento das Cinzas

“A paixão é um estado demencial. É um excesso de dopamina no cérebro”, avalia Renata. Ela sabe muito bem o que enfrentou por conta da paixão. Depois de ficar casada por 13 anos, se divorciou e reencontrou um ex-namorado. O relacionamento que prometia o felizes para sempre se transformou em um pesadelo por conta do vício em drogas do parceiro.

Psicóloga e coach Renata Costa Miranda criou a Escola de Solteiras — Foto: Renata Costa Miranda/Arquivo Pessoal

“Ficamos uns dois anos juntos. Fui ao fundo do poço e senti vergonha como profissional e tentei ajudá-lo, mas não tive sucesso. Entrei em depressão, ia a consultas com psiquiatra e fazia terapia duas vezes por semana. Renasci das cinzas. Me via como uma psicóloga frustrada. E pensava ‘que farsa que eu sou’. Mas me libertei dessas amarras no sentido de julgamento e dei a minha cara para bater”, afirma.

Renata avalia que a carência e a falta de autoconhecimento foram alguns dos fatores que a jogaram em um relacionamento nocivo. “Eu sobrevivi, dei a volta por cima e decidi ajudar a mulherada.” A psicóloga destaca que o que salva as pessoas é o autoconhecimento. “As mulheres precisam saber quem elas são hoje, o estado atual dela. A gente não se conhece, a gente se rotula.”

Nos treinamentos, Renata conta que ajuda as mulheres nesse processo de descoberta de si mesma e também de entender mais os homens.

“É como um quebra-cabeça e vai encaixando as peças. Vem com a maturidade. A gente se rotula ‘nasci com dedo podre’, ‘nasci para sofrer’, ‘eu não vou ser feliz nessa vida’. Isso é pura falta de amor próprio e autoconhecimento.”

Outro ensinamento da psicóloga nos treinamentos é o “check-list do homem ideal”. Ela faz as mulheres refletirem sobre quais características que desejam de um companheiro. “Elas querem um parceiro honesto, fiel e trabalhador. E eu falo que não é só isso. O check-list é feito de detalhes que elas nem percebem que fazem a diferença na hora da escolha do homem ideal. Precisa avaliar o contexto da vida da pessoa e detalhes, como filhos pequenos do parceiros, por exemplo. Isso porque no decorrer da relação os problemas vão chegando.”

Segundo a psicóloga um dos grandes segredos do sucesso é querer que o relacionamento dê certo, conhecer a pessoa e admirá-la. “É um conjunto de fatores que tem que avaliar. Realmente é um grande desafio, conviver e compartilhar uma vida. É uma grande aventura que sem autoconhecimento para entender o outro é inviável.”

Abuso visto como amor

A psicóloga Bianca Mayumi afirma que muitas mulheres presenciaram relações abusivas na família e podem ter compreendido que isso significa um relacionamento.

“Muitas vezes esse relacionamento não vai para o abuso físico e sexual. Vai para o abuso moral, psicológico e patrimonial. São vivências invisíveis de controle, manipulação e julgamento. Quando se percebe essas mulheres têm baixa autoestima e entendem que a relação significa aqueles padrões. E elas permanecem. Muitas mulheres com muita informação se envolvem em relações abusivas, pois são vários gatilhos e raízes que as fazem permanecer”, destaca Bianca.

Psicóloga Bianca Mayumi defende autoconhecimento para ajudar na escolha de um parceiro — Foto: Bianca Mayumi Matsuura Yoshioka/Arquivo Pessoal

A psicóloga também ressalta que o autoconhecimento é o ponto central para evitar relacionamentos abusivos e que isso pode ser conquistado não só em sessões de psicoterapia, mas também quando a mulher passa a entender as necessidades dela.

“O que eu não abro mão para uma relação? O que é importante para mim? Vai constantemente vendo o que gera incomodo e fico alerta. Se temos conhecimento das nossas emoções, limites e valores, fica mais visível identificar o comportamento abusivo que passa do carinho e amor para o espaço de violência. É muito estranho ter que pensar que é confuso desconectar controle de amor. E como abuso ainda é visto como amor. Isso é sutil muitas vezes.”

A psicóloga aponta que o abuso começa a ser notado após a fase da paixão, quando começa o tempo do amor e o relacionamento vai se ajustando entre o casal.

“Começa a ter momentos estranhos, pode ser um comentário que gerou incomodo, olhar de algum modo assustado, aumento de tensões, grito, xingamento. Depois vem a explosão e diz que não vai mais acontecer, jura mudança e a pessoa perdoa. E também alguns comentários que justificam essa violência ‘eu fiz isso porque de algum modo você me fez ficar inseguro’, ‘tive comportamento porque você me provocou’. E tem também a violência psicológica quando diz que isso nunca aconteceu, ‘como eu falaria isso’, ‘eu não disse isso’.”

Bianca avalia que a construção social da mulher ainda na infância é uma responsabilidade de toda a sociedade que ainda cobra um determinado comportamento e valores das meninas.

“Ela precisa se moldar para agradar sempre aos outros. Menina precisa ir na igreja, casar e ter filhos. Construindo essa mãe e também olhando ao redor, todo mundo falando o caminho certo para ser boa mulher, significa que tenho que valorizar mais os outros, ser boa, precisa maternar todo mundo.”

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