Brasil, China e Europa: crises energéticas ameaçam retomada da economia
Ao que tudo indica, China, Europa e boa parte do mundo terão caminhos tortuosos rumo à recuperação pós-pandemia. Impactos no Brasil podem ser ainda mais graves.

Diante do cenário de avanço das campanhas de vacinação, queda no número de casos e mortes por covid-19 e a retomada das atividades econômicas, o mundo se prepara para um período de crescimento dos ritmos de produção. No entanto, algumas das principais economias do mundo enfrentam problemas com um gargalo que ameaça atrapalhar essa aceleração: o setor energético.

Brasil, China e países da Europa, como Reino Unido e Alemanha, já sentem os impactos dessa crise que, apesar de estar inserida em um mesmo contexto de produção global, pode ter causas distintas dependendo do país analisado.

China

Há décadas, a principal fonte de energia utilizada pela China, a segunda maior economia do mundo, tem sido o carvão. De acordo com a Bloomberg, 70% da energia elétrica do país é produzida por meio da queima do combustível, o que o torna o maior consumidor no planeta.

Tendo em vista a meta de atingir a neutralidade de carbono até 2060, o país está em processo de implementação de um grande plano de renovação da matriz energética, o qual prevê, por exemplo, a substituição do carvão por outras alternativas, principalmente as fontes de energia limpa. Mas esses planos têm enfrentado obstáculos.

Com o avanço da vacinação e sinais de controle da pandemia da covid-19 na China e no mundo, a demanda por produtos vindos do gigante asiático, especialmente no setor de eletrônicos, provocaram um aumento recorde no consumo de energia no país. Segundo dados da Administração Nacional de Energia da China (NEA), a demanda por energia em 2021 já ultrapassou índices pré-pandemia. Consequentemente, o preço do carvão disparou e alcançou patamares recordes.

Além desse aumento na demanda por energia e da desativação de minas de carvão em razão da implementação de uma estrutura energética sustentável, somam-se um cenário de escassez de carvão em decorrência de inundações de minas e de tensões geopolíticas com países produtores, como a Austrália, aos quais a China costumava recorrer em situações de falta do insumo. Alta demanda industrial, consumo de energia recorde, e falta de carvão: é uma tempestade perfeita.

De acordo com a Televisão Central da China (CCTV), milhões de famílias, negócios e fábricas sofrem com as quedas de energia no país, especialmente na região nordeste. As vendas de velas dispararam e mais de 20 pessoas na província de Liaoning tiveram que ser socorridas em um hospital com envenenamento por dióxido de carbono depois que a ventilação da fábrica em que trabalhavam parou de funcionar por falta de eletricidade.

O cenário fica ainda mais preocupante tendo em vista a aproximação do inverno, quando a necessidade por aquecimento nas casas e negócios aumenta. A crise levou o grupo financeiro Goldman Sachs a reavaliar suas projeções de crescimento para a China.

Apenas na província de Guangdong, um dos principais pólos industriais do país, quase 150 mil companhias sofreram com a falta de eletricidade em setembro, reportou o Financial Times. A crise causa preocupação em relação à oferta de produtos chineses e pode contribuir para uma desaceleração do ritmo econômico de outros países, principalmente o Brasil, grande dependente da exportação de commodities para o país asiático.

Europa

Em vez do carvão, o vilão na Europa é o gás natural. Em decorrência de um inverno extremamente frio (entre 2020 e 2021) e um verão de temperaturas altíssimas, os reservatórios de gás natural europeus estão criticamente desabastecidos, já que o consumo de energia em períodos de temperaturas extremas é maior.

Como se não bastasse a escassez do insumo, há um aumento das demandas por energia elétrica em função da retomada econômica pós-pandemia. Com o aumento da necessidade de gás por parte da China, que tem utilizado o combustível na substituição do carvão, os preços dispararam.

De acordo com a agência Reuters, o valor do gás natural já subiu mais de 600% desde o início do ano na Europa. Em determinado ponto de outubro, houve um aumento de 34% do preço do gás em 24 horas no Reino Unido, um dos países mais afetados pela crise e onde 85% das casas utilizam gás em seus sistemas de aquecimento. O caso britânico é ainda mais grave, já que enfrenta ainda uma crise de abastecimento de gasolina em razão da falta de motoristas de caminhão, uma consequência do Brexit e das novas políticas de fronteira. Em várias cidades, as bombas de postos de gasolina secaram, e o exército foi acionado para realizar o transporte de caminhões-tanque.

Agora, a Europa é dependente do gás natural que vem, principalmente, da Rússia, e líderes da União Europeia já acusam o presidente russo Vladimir Putin de estar desacelerando o ritmo de exportação de gás e causando um aumento artificial dos preços, além de forçar o acordo pela construção de um novo oleoduto que conecte a Rússia à Alemanha, o que levaria a Europa a ser ainda mais dependente do gás russo. Putin nega as acusações e as considera como “fofocas politicamente motivadas”.

De acordo com a Forbes, a chefe de Energia da Comissão Europeia, Kadri Simson, defende que a crise energética enfrentada pelo continente não deve ser usada como pretexto para desacelerar a transição verde das matrizes energéticas, e sim como motivação para acelerar a implantação de fontes de energia sustentável. Ela acredita, ainda, que os países da União Europeia que desejarem podem tomar parte em uma compra coletiva de gás natural líquido, com o fim de construir uma reserva estratégica do insumo.

As previsões para o inverno que se aproxima são pouco tranquilizadoras, e os preços do gás tendem a subir ainda mais.

Brasil

Em decorrência da mudança climática, intensificada pela alta recorde no desmatamento e nas queimadas, o Brasil enfrenta períodos de seca intensa que levaram à pior crise hídrica em 91 anos. Com os reservatórios das hidrelétricas vazios, o risco de racionamento energético e apagões surgiu como uma nova ameaça ao crescimento econômico brasileiro.

A preocupação em torno da produção de energia nas hidrelétricas, responsáveis por 70% da energia elétrica do país, provocou o acionamento das usinas termelétricas, mais caras e nocivas ao meio ambiente. Outra medida que deve provocar uma subida ainda maior nos preços é a privatização da Eletrobras, que nem serve aos interesses dos consumidores nem atende as necessidades de modernização do setor elétrico. De acordo com o ex-presidente da empresa e professor de planejamento energético da UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, a privatização da Eletrobras deve gerar um aumento de até 25% no preço final para o consumidor.

Como aponta um relatório feito pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Brasil precisaria realizar um investimento de mais de R $110 bilhões em infraestrutura e modernização até 2035 para que o país escapasse dos ciclos de escassez, que tendem a se intensificar.

Apesar das chuvas recentes em algumas regiões do país, a professora Mercedes Bustamante, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e professora da Universidade de Brasília (UnB), acredita que “os reservatórios que estão em níveis mais críticos ainda precisarão de mais tempo para recuperar o volume de água” e que “é preciso também considerar que a chuva precisa ser distribuída nos locais apropriados para o enchimento dos reservatórios.”

Além da ameaça hídrica, também estão no tabuleiro o aumento da demanda de energia por conta da retomada econômica, como acontece no restante do mundo, e os disparos incessantes no preço do gás de cozinha e da gasolina, impulsionados por uma política fiscal que faz com que os preços do combustível variem de acordo com a cotação internacional do barril do petróleo e com a flutuação do dólar. Ou seja, é empregada uma política de preços de acordo com a qual o petróleo produzido no Brasil é precificado de acordo com variáveis internacionais, e quem perde é o consumidor. Nos últimos seis anos, a gasolina subiu mais de 94%, e o gás de cozinha 289%.

Todos esses fatores colaboram para uma desaceleração do ritmo de crescimento econômico no Brasil pós-pandemia, e, ao que tudo indica, China, Europa e boa parte do mundo também terão caminhos tortuosos rumo à recuperação.

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