Aluna trans agredida em Mogi diz que não quer voltar para a escola

Aluna trans agredida em Mogi diz que não quer voltar para a escola

Jovem tem 16 anos esteve na delegacia, nesta manhã, onde registrou um boletim de ocorrência. Receituário médico afirma que ela ficou com hematomas no rosto, pernas e costas após briga generalizada em que outras pessoas também ficaram feridas.


A aluna transexual agredida em uma escola da rede estadual de Mogi das Cruzes afirma que não quer voltar a estudar na unidade ‘nunca mais’. Nesta quinta-feira (10), a jovem, de 16 anos, esteve com a mãe no 1º Distrito Policial para registrar um boletim de ocorrência.

O caso ocorreu na quarta-feira (9), na Escola Estadual Galdino Pinheiro Franco. A adolescente foi agredida após uma discussão que se transformou em uma briga generalizada. Um vídeo que mostra o momento da confusão viralizou nas redes sociais .

“[Não quero voltar] nunca, de jeito nenhum. Estou com uma raiva imensa deles. Uma raiva muito grande, com ódio, sangue no olho. Quero justiça”, diz a jovem.
“Daqui pra frente eu quero mudar de escola. Estou muito revoltada mesmo. É uma sacanagem uma pessoa, sou uma pessoa, com dez pessoas contra mim. Ninguém aguentaria. Eu fui forte. Se fosse outro, teriam arrebentado a cara”, completa.

De acordo com o boletim de ocorrência, a confusão começou depois que os meninos da sala começaram a jogar bolachas e fazer piadas contra uma menina negra, amiga da jovem, a chamando de “cabelo duro”.

A estudante trans pediu que eles parassem. Porém, além de desrespeitar o pedido, um dos alunos jogou um copo no rosto dela. A jovem foi atrás para tirar satisfações e afirma que cerca de 10 estudantes começaram a agredi-la com socos e chutes.

O receituário emitido pela Unidade Básica de Saúde (UBS) do Jardim Universo aponta que a estudante ficou com hematomas na face, orelha, pernas e costas. Depois do atendimento, ela foi medicada e liberada sem a necessidade de fazer exames.

“Começou com soco, com chute. Tentei me defender, tentei me esquivar daquilo. Depois me tranquei numa sala. Tentaram abrir a porta para me pegar lá dentro e nós não deixamos barato”, afirma a adolescente.


Durante a briga, segundo a jovem, outras pessoas que não estavam envolvidas também acabaram sendo atingidas. Ela ainda diz que chutou carteiras e afirma que o ato foi consequência da revolta pela situação que enfrentou.

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“Na hora da raiva a gente fica cega. Eu machuquei pessoas que não tinham nada a ver com a briga e pessoas que não tinham nada a ver com a briga entraram no meio. Peço perdão para as pessoas que machuquei”.

“Quer dizer que a gente é transexual, a gente é animal, é um bicho? Não, a gente é humano. Deus ama todos. Lá na frente eles podem ter filhos. Eles não sabem como os filhos deles vão ser”.

A gota d’água

A mãe da adolescente afirma que a confusão foi resultado de uma série de agressões sofridas pela filha, por transfobia, desde início do ano letivo, que começou na última quarta-feira (2). Esse é o primeiro ano dela na escola.

“Eles ficam tirando sarro da situação dela. Ela é um ser humano. A gente tem que respeitar todo mundo. Eu acho que cada um vive do jeito que quer. Cada um tem suas escolhas. Acho que eles não tem que ir batendo, socando ninguém, achando que ela tem que ser diferente”.

“Ontem chegou no limite. Foram 10 pessoas que bateram nela. Ela ficou nervosa e acabou que ela também foi pra cima das pessoas. Ela falou que não estava aguentando mais, aí ela estourou. Tudo isso já vem acontecendo um tempo”.

A mulher relata que soube das agressões porque os vídeos começaram a circular pela internet. Ela foi para a unidade de ensino e teve que ser escoltada pela polícia até em casa, porque diversos estudantes teriam ameaçado bater na menina na rua.

Porém, depois do episódio, a mãe diz que ficou sabendo de outros casos de agressão na Escola Estadual Galdino Pinheiro Franco. Inclusive, desde a volta às aulas, outras ocorrências do gênero já teriam ocorrido entre outros estudantes.

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“O policial até falou para eu tirar ela da escola, porque tem muita briga lá. As pessoas não respeitam ninguém. Aquela escola lá são pessoas muitas más que tem. Acho que eles têm que tomar uma atitude contra isso”, disse.


Ela está acuada. Não quer sair. Está com medo, porque ameaçaram de pegar ela lá fora também. Eu não sei o que vai acontecer se ela sair para a rua, porque as pessoas são traiçoeiras também. Não sei o que está acontecendo, o pensamento deles”.

“Eu estou acabada. A gente nunca pensa que vai acontecer com os filhos da gente. Quando acontece, você fica sem chão, não sabe o que fazer. Tem que falar mesmo, sair botando as caras e falando, pra ver se, pelo menos, ameniza”.

O secretário estadual de educação, Rossieli Soares, comentou o caso em uma rede social. Na postagem, ele afirma que não tolera atos violentos dentro das escolas, principalmente motivados pelo gênero.

Diz também que as cenas registradas em Mogi das Cruzes são lamentáveis. Rossieli destaca que a Ronda Escolar e as equipes do Conviva foram acionadas e que foi determinada a abertura de uma apuração imediata do caso.

Segundo o g1, o chefe de gabinete da pasta, Henrique Pimentel, lembrou que a escola faz parte do Programa de Ensino Integral (PEI), que tem entre seus objetivos aproximar alunos e professores, trabalhar questões socioemocionais e combater episódios de violência.

“É uma pena que isso acontecesse logo no inicio do ano letivo, sem que a unidade começasse ter tempo de iniciar seu projeto. A gente acredita que uma das formas de evitar a situação de violência é por meio do PEI”.

“A escola é um ambiente transformador. O ensino integrado é composto de várias peças importantes para formação de estudantes mais protagonistas, engajados”, disse. “O que a gente acredita e vai continuar defendendo é que a escola de ensino integral é fundamental nesses casos”.

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