
Por: Luana de Souza

Especialista da UMC explica como falhas no controle de acesso podem expor imagens, revelar a rotina de cidadãos e comprometer a privacidade
O acesso indevido a imagens do Smart Sampa, sistema de monitoramento por câmeras da cidade de São Paulo, chama a atenção para os riscos de segurança digital em plataformas de vigilância. Segundo Flávio Francisco da Silva, especialista em cibersegurança e professor do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), a proteção desses sistemas depende de medidas capazes de prevenir falhas e limitar os danos de eventuais acessos não autorizados.
“Um bom desenho de segurança parte justamente do princípio de que alguém, em algum momento, vai errar ou agir de má-fé”, explica o especialista.
O problema, divulgado pela imprensa nesta semana, teria permitido o acesso indevido às imagens das câmeras por vários meses. O episódio reforça a necessidade de controles de segurança em sistemas que armazenam ou disponibilizam registros de circulação de pessoas.
De acordo com o professor, a proteção exige uma combinação de tecnologia, processos e capacitação dos usuários. Entre as medidas recomendadas estão autenticação em duas etapas, criptografia, controle de permissões e monitoramento dos acessos.
“A proteção não deve depender exclusivamente da conduta individual dos usuários, mas também de mecanismos capazes de limitar os danos de eventuais falhas e detectar comportamentos suspeitos”, afirma.
O uso indevido de imagens de monitoramento pode revelar informações sobre os hábitos de moradores, funcionários e visitantes. Registros de entradas e saídas, horários de circulação e veículos utilizados podem ser explorados em crimes, tentativas de extorsão e invasões de privacidade.
Em condomínios que compartilham imagens de câmeras externas com sistemas públicos, também é importante diferenciar as gravações dos cadastros internos, como nomes de moradores, registros de visitantes e dados biométricos. Essas informações geralmente são administradas pelos próprios empreendimentos ou por empresas responsáveis pela gestão condominial.
A distinção, porém, não elimina os riscos relacionados às imagens compartilhadas. Para reduzir a exposição, Flávio recomenda que cada usuário tenha acesso apenas aos dados necessários para exercer suas funções. O registro das consultas e a revisão periódica das permissões também ajudam a identificar atividades suspeitas.
As vulnerabilidades não estão restritas às plataformas públicas. Câmeras instaladas em residências, condomínios e empresas também podem ser alvo de acessos indevidos, inclusive quando as gravações são armazenadas na nuvem.
Segundo o especialista, muitos problemas estão relacionados a configurações inadequadas, senhas fracas, credenciais de fábrica que não foram alteradas, equipamentos desatualizados e compartilhamento de logins entre diferentes usuários.
Para reduzir os riscos, a recomendação é utilizar senhas fortes e exclusivas, ativar a autenticação em dois fatores quando disponível, manter os equipamentos atualizados e limitar as permissões de acesso.
Também é importante estabelecer prazos para o armazenamento das gravações, evitar o direcionamento de câmeras para ambientes privados e definir regras claras para o compartilhamento das imagens.
Os fornecedores, por sua vez, devem incorporar recursos de segurança desde o desenvolvimento dos sistemas, incluindo criptografia, atualizações de software e registros de acesso. Os contratos também precisam estabelecer responsabilidades pela proteção das informações e pela comunicação de incidentes.
A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece regras para o tratamento seguro de informações pessoais, embora preveja disposições específicas para operações realizadas exclusivamente para fins de segurança pública.
Quando um incidente de segurança pode causar risco ou dano relevante aos titulares dos dados, a regulamentação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) prevê a comunicação à autoridade e às pessoas afetadas, conforme os critérios legais aplicáveis.
A resposta a um incidente deve incluir medidas para conter a exposição, revisar credenciais, identificar possíveis acessos indevidos e investigar as circunstâncias do ocorrido.
“Quem trata imagens de pessoas precisa encarar isso como obrigação legal, e não como detalhe técnico”, destaca Flávio.
A adoção de controles preventivos, a revisão das permissões e a resposta rápida a incidentes são medidas importantes para proteger a privacidade dos cidadãos e garantir o uso seguro das tecnologias de monitoramento.
Créditos da foto: Monitoramento por câmera do Smart Sampa — Alf Ribeiro/Shutterstock.com.
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